Pra ontem



Quando eu olho para a esquina vejo o contorno do seu corpo surgindo, ainda longe, na minha direção. E lá vem você me assombrar de novo, penso. Pare, simplesmente pare. Por favor, pare. Acho que você já cometeu estragos suficientes por aqui. Ou você achou pouco virar a minha vida do avesso e depois partir como se fosse a coisa mais simples do mundo?

Não estou aqui para te salvar, não adianta você me procurar para que eu te console. Você veste suas angústias e bate na minha porta, como se eu fosse a sua cura. Mas ninguém tem esse poder, você precisa crescer e buscar essa força aí dentro, sei que ela existe. Pare de usar quem aparece na sua frente para tentar desfazer suas frustrações, ninguém vai te pegar pela mão e te mostrar por qual caminho seguir. Pare de se embriagar dia após dia, noite após noite, na tentativa de esquecer o vazio que te consome. Nada nem ninguém vai fazer esse enjoo passar, entenda. 

A culpa não é sua, a maioria das pessoas acha que pode preencher o que falta com o que aparece pela frente. Bebida, comida, jogo, compras, pessoas. Mas as coisas não são assim, precisamos chacoalhar e sacudir todo o passado em busca do que nos aflige de fato. É claro que alguma coisa vai doer, que essas remexidas podem trazer algum sofrimento. Não precisa ter medo, isso é normal, acontece com qualquer ser humano. Busque a sua sensibilidade, tente entrar em contato com o que há mais puro em você, se conecte com o que você é lá no fundo.

Acho que o seu egoísmo te impede de enxergar o mundo com clareza. Sua falta de noção faz com que você fique cego e não consiga se enxergar. Procure as saídas e as soluções dentro de você. Procure você mesmo aí dentro. Uma hora as pessoas precisam se encontrar. Torço para que você consiga (pra ontem).

Rapidinhas




Eu não sei jogar esse seu jogo de azar. Gosto é da sorte, do cheiro bom, de sentir coisas que dão aquele calorzinho no peito. O gosto da dúvida é amargo demais pra mim. Ficar no chove e não molha, no vai ou não vai, em cima do muro, não. 

Não, não venha com esse olhar sedutor tentando me contar histórias. Não me faça sonhar. Me faça viver, sentir, querer estar ao seu lado. Quero sentir a realidade, o dia a dia, a verdade. Não estou com vontade de ser mais uma conquista ao lado das suas medalhas naquela prateleira quase esquecida.


Todo dia tem alguém se queixando ou reclamando da vida. Eu também reclamo muito, mas tento me policiar. Existe mesmo um real motivo para reclamar? É claro que nem tudo sai sempre como a gente quer, mas isso não é motivo para torcer o nariz ou fazer cara feia. 


Precisamos aceitar, sem dor, que não temos o controle de nada. Somente das nossas ações ou sentimentos, portanto o que depende de nós pode, sim, ser transformado. Não tem mágica: basta querer e trabalhar para que isso aconteça.


Enquanto meu sonho fizer sentido vou continuar aqui. Enquanto eu continuar sentindo você vai continuar aqui. E isso é tudo.


Tomara que a gente tenha maturidade suficiente para olhar pra dentro e reconhecer nossas falhas. Tomara que a gente consiga descartar o que não serve sem apego ou drama. Tomara que a gente possa olhar para a frente sem aquela mágoa azeda do que ficou para trás. Tomara.


Não tem nada melhor do que começar a semana limpando tudo. A casa, o coração, as gavetas, os cantos, as frestas, os armários, os pensamentos, o que não presta mais, os vazios e os cheios, os espaços e os meios. 

Uma mãozinha


Rapidinhas



Eu tô sempre esperançosa que melhore, que flua, que aconteça. Mas uma hora a gente duvida da fé. Uma hora a gente cansa.

♥ 

Como é boba essa nossa mania de fazer planos. É plano pra isso, plano para aquilo. Listas imensas, tópicos, lembretes, avisos. Plano, plano. Não seria mais fácil viver sem pensar no amanhã? Viver, apenas. Acordar, levantar, fazer o que precisa ser feito, aprender o que precisa ser aprendido. Sem esperar nada além. Viver, apenas. Se relacionar, perdoar, entender que todo mundo falha e que a raça humana é mesmo cheia de desejos. Seria menos doloroso. Mas também mais chato e vazio, afinal, são os planos que nos dão a força necessária para seguir nosso caminho quando o mundo está sem cor.

♥ 

Se engana quem pensa que me conhece só porque me lê. Não me mostro tão facilmente. Tenho segredos tão bem escondidos que só revelo depois de confiar bem em alguém. E, olha, é difícil eu confiar numa pessoa. Já apanhei tanto da vida que tenho calos, marcas e cicatrizes. 

♥ 


Eu não sou meiga. É claro que sou educada e polida com quem gosto e não gosto. Só que meu jeito de falar é muito incisivo, não sou de dizer amém pra tudo, aprendi a dizer não, demoro um pouco a perder a paciência, mas se me tiram do sério eu explodo. Tem gente que chama isso de autenticidade. "É o meu jeito", dizem. "Sou sincera", reforçam. Eu não gosto de ser assim, detesto ser explosiva, queria ser mais tranquila, pois quando fico furiosa a cegueira toma conta e não há quem consiga dar um jeito. Daí eu grito e depois sempre me arrependo.

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Quando falo em fé não falo em Deus, mesmo porque cada um tem o seu. Não importa se você acredita em Santo Antônio, Jesus, Oxalá, Jeová, espíritos, Buda ou é ateu. O que importa é que você tem fé em alguma coisa, mesmo que esse alguma coisa seja você mesmo. A gente precisa ter algo que nos faça acreditar. 

♥ 

Nem sempre acredito no que escrevo, nem sempre minhas linhas são meu reflexo, nem sempre estou de corpo e alma no meio das letras. Eu sou muitas pessoas e isso facilita um pouco as coisas. Isso me ajuda a enxergar, a me distanciar e a me aproximar quando é necessário. 

♥ 

Olha, me desculpa a franqueza, mas não quero saber o que você pensa. Se eu quiser certamente vou te perguntar. Mas não precisa dar uma de amigão do peito, limpar a garganta e começar a falar tudo que você acha certo e errado na minha vida. Já sou maior de idade, minha carteira de vacinação está em dia, sei que tudo tem uma ação e reação. Guarda toda essa energia para melhorar o que está desencaixado dentro de você. Deixa que de mim eu sei.

♥ 

De vez em quando eu até tento me fazer de durona, mas meu coração é mais mole que mingau de aveia. Não acho isso ruim, só que muitas vezes acabo sendo legal com quem não presta. E no final quem sofre sou eu. 

 
Sobre os créditos nas imagens:
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©2005 Clarissa Corrêa | + Magda Nascher