Coisas da gaveta


Vim aqui dizer para você que tenho lido e visto coisas duras sobre o amor. Sinto como se o meu coração fosse uma gaveta enorme, que cabe tudo, desde miudezas até chumbo, porque chumbo pesa. O amor é para ser leve, mas as coisas que tenho ouvido são difíceis de pensar. Quando eu era menor fazia uma imagem bem específica do amor, cresci e vi que nada daquilo era real, que ele era muito mais e eu tinha mais ainda para descobrir sobre o mais que eu achava que ele era. Sei que parece confuso, mas o amor é confuso de vez em quando e a minha gaveta está cheia, preciso ir tirando tudo de dentro para contar para você o que realmente faz falta e é necessário ficar lá. Depois eu fecho novamente e espero a próxima faxina, mas por enquanto me escute um segundo. Ou muitos, sou demorada.


No começo tudo são flores, tudo é bonito. Com o tempo os problemas vão aparecendo e, junto com eles, a rotina. Que coisa desconfortável. Você embarca em um relacionamento e, acredito eu, se você é alguém mentalmente e temporariamente saudável, por favor, você quer que dê certo. Ninguém se atira em uma relação pensando que pode dar errado, sei que existem muitos masoquistas por aí, eu já fui uma delas, gostava de sofrer e entrava em qualquer coisa apenas pelo prazer de me imaginar dali a alguns dias chorando abraçada na almofada do sofá, tendo como companhia qualquer coisa que queimasse a minha garganta e me desse a sensação de bebunzice temporária, só para esquecer, só vou esquecer hoje, amanhã tem dose dupla para esquecer duplamente. E no outro dia dose tripla, quanto mais você bebe mais demora para se embebedar, os dias passam e as doses aumentam, os dias passam e o sofrimento aumenta e eu gostava muito disso, deveria ter sido internada e amarrada, nunca vi uma sujeita gostar tanto de drama-drama-drama e homens que não-prestam-não-prestam-não-prestam. Repita comigo: ele (seja ele quem for) vai te tratar como você se permitir ser tratada. Se você se colocar no lugar de uma bromélia ele irá te tratar como uma bromélia. A não ser que ele seja louco, você sabe que existem muitos homens loucos por aí, conheci muitos deles, conheci muitas espécies e tipos, alguns bem raros, outros em extinção - e ainda bem que estão. Ou não. Nada disso vem ao caso, o foco é: você entra em uma relação com o pé direito, pé de coelho, galho de arruda e antes, se der, toma um banho de sal grosso, afinal, por favor, eu quero que dê certo, muita sorte para mim, para você e para todo mundo que está neste exato momento beijando pela primeira vez ou beijando pela vez do quero-muito-que-dê-certo-porque-eu-mereço-ser-feliz. Antes que você pense que eu li algum livro barato e tosco de auto-ajuda-feminina eu vou mudar o rumo da prosa.


Especialistas (em quê?) dizem que a rotina estraga a vida de qualquer casal. Só um momentinho, mas a sua vida foge da rotina? Você mora na mesma casa, tem o mesmo emprego, a mesma família e os mesmos amigos. Óbvio que você pode se mudar, mas ninguém muda o tempo todo, a não ser que seja um mochileiro ou viajante ou hippie. Óbvio que você pode trocar de emprego, mas a coisa do jeito que anda, convenhamos, o que o povo quer é estabilidade. Dá para mudar, evoluir, mudar de ares, mas você não é garota de programa (suponho eu, se for tudo bem também, sou livre de preconceitos) para mudar o tempo inteiro. E olha que elas (ou vocês, quem não for não se sinta ofendida, hein?), apesar de mudarem de cliente, continuam fazendo o mesmo trabalho. Não preciso explicar tanto, você não tem cinco anos. E se tivesse eu não estaria aqui falando de garotas de programa e do que as garotas de programa fazem. Óbvio que você tem a mesma família, claro que uns morrem e outros nascem, mas a essência da família é sempre a mesma. Óbvio que você tem os mesmos amigos, afinal, os bons a gente quer manter até o fim. Sei que você é uma pessoa aberta e gosta de fazer novas amizades, portanto dá as boas vindas aos novos e mantém os velhos. Em outras palavras: a sua vida é rotina pura. Existem dois caminhos que você pode escolher para ir até o trabalho, em um dia vai por um e em outro por outro. Mas só existem aqueles dois. Sua vida é rotina pura. Rotina, rotina. Especialistas (em quê?) dizem que a rotina estraga a vida de qualquer casal e eu digo que eles são burros. Um dia nunca é igual ao outro, mesmo que pareça. A gente enxerga a mesma coisa de muitas formas, apesar de só termos dois olhos. Não acho que a rotina enche o saco, acho que você enche o saco por pensar que a rotina pode vir a encher o saco. São coisas bem diferentes. Não dizem que criança precisa ter rotina? Tem hora para dormir, para escovar os dentes, para fazer o dever da escola, para brincar, para ir para o colégio. Por que depois que a gente cresce resolvem dizer que a rotina ferra tudo?


Acho que no começo a tendência é mostrar o lado mais escovado e maquiado. Depois você vai relaxando, em um dia sai com o cabelo molhado, no outro passa só um rímel, daqui a pouco, bum, você aparece sem escova e sem maquiagem. O cara pode sair da mesma forma que entrou: pela porta da frente. Ou pode sair pela janela, correndo de medo. O amor é como a dança, você tem que estar receptiva a novos passos. Às vezes você precisa se deixar conduzir, em outras tem que ter a iniciativa de dar uma voltinha ou fazer uma pirueta (que dança é essa?). Ele não é sempre igual, apesar do sentimento beber da mesma fonte. O principal é você ser sempre você, assim ninguém sai prejudicado por ter feito projeções ou criado ilusões em cima de imagens. Sinceridade e autenticidade, sempre.


O amor dura só dois anos, depois vira amizade. Ou você continua amiga ou parte para uma nova paixão. Epa, como assim? Existe uma diferença básica entre amor e paixão, o dia em que você amar perceberá, não adianta eu tentar usar todo o meu estoque de frases para explicar algo que só pode ser sentido. Se o amor dura pouco assim, por favor, prefiro acreditar em coisas bela adormecidescas. Depois acaba, todo mundo diz que um dia, depois, acaba. Tem que acabar mesmo?, eu me pergunto. Se é bom não deveria ter fim, certo? E as pessoas insistem em dizer que tudo acaba um dia. Acho desesperador pensar assim, pois se funciona exatamente desta forma é preferível viver no mundo dos sonhos, da imaginação, em que tudo é permitido e bonito.


O amor, assim como a vida, não nos dá garantias. Você não sabe quando, como e onde vai morrer (só se você comprou uma bola de cristal, bom, então por favor me passe o seu endereço que quero umas previsões para o ano que vem). E ainda assim vive. Vive como se fosse imortal, pois as pessoas têm essa mania, pensam que tudo podem. Você não sabe até quando, de que forma e por qual motivo vai continuar amando ou vai começar a amar. E ainda assim ama, ou não, uns fogem do amor como se ele fosse inimigo. Que seja eterno enquanto dure. Desculpa, mas eu sou criança. Quando eu era criança pensava que os meus pais iam durar para sempre, achava que eles nunca morreriam. Sei que um dia, tomara que demore muito, eles irão para outro lugar. Mas ainda assim, para mim, serão eternos. Penso assim por sentir um amor infinito por eles. É tão estranho amar alguém, é tão bom e ao mesmo tempo amedrontador, pois você quer que seja eterno, que dure para sempre e se durar até depois do sempre será ainda melhor. Por isso eu ando aflita com essas coisas de amor, com o que dizem. Acho pequeno demais pensar que por dois anos tudo fica bem e depois estraga, acho ruim demais pensar que no começo tudo é belo e depois enfeia, acho triste demais achar que a rotina embaralha os sentimentos.


Talvez tudo isso aconteça por te amar demais. Não de um jeito possessivo e louco, mas de um jeito que me dá a certeza de querer você sempre ao meu lado. Até depois do fim de tudo. Ou do começo. Porque o amor é libertação.

Até o ano que vem!


Eu adoro o mês de outubro, não sei bem a razão. Em outubro tem primavera, flor cheirosa na árvore aqui da frente. Tem sabiá cantando de manhã, este ano teve horário de verão (nunca sei quando ele começa, às vezes é em novembro ou tô louca?). Tem o meu aniversário, que pra mim é uma data muito feliz. Tem o dia da criança, que é o meu segundo aniversário. Tem muito sol e colorido nas principais avenidas da cidade, pois as flores ficam bem exibidas querendo aparecer a qualquer preço. Adoro outubro, hoje é o último dia do mês. Me despeço com um quê de tristeza e saudade.


Não gosto de novembro. Eu sei, o mês vai chegar amanhã, eu deveria estar com um sorriso nos lábios e usar toda a minha educação, receber bem o convidado, mas preciso fazer desfeita. Não gosto e pronto. Em novembro o clima em Porto Alegre começa a ficar insuportável. Quente e abafado e quente e abafado, sol torrando tudo e todos, não gosto. Minha pele é sensível, não posso ficar muito exposta ao sol. Minhas sardas pedem socorro, fico morrendo de pena das coitadas. Em novembro começa aquela arrumação natalina. E você sabe que não gosto de Natal. Não gosto de decoração de Natal, de comida de Natal, de espírito natalino, você tem que ser bonzinho o ano inteiro. Não adianta chegar novembro e dezembro e você sair correndo para asilos, orfanatos e distribuir dinheiro, bala, brinquedo, fralda geriátrica. Tudo bem, é melhor fazer tudo isso do que não fazer nada. Mas acho uma bobeira o tal espírito natalino, a gente tem que fazer pelo outro todos os dias, nem que seja um pouco, o mínimo. E não virar um santo em época de natal pra depois voltar ao normal. Antes mesmo da árvore ser desmontada você já volta a ser quem era.


Novembro é aquele mês em que todo mundo começa a tirar o pó das caixas com enfeites de Papai Noel, anjinho, boneco de neve, sai de tudo, parece cartola de mágico. Aqui em casa a minha mãe tem não sei quantas caixas com pilhas e pilhas de cacarecos, o pior é que ela fica num agito só, adora arrumar tudo. E me chama. Me chama muito. Me ajuda, vem cá, arruma ali, coloca lá, isso, ai que lindo, agora coloca o Papai Noel na sacada. Sim, nós temos um Papai Noel suicida, ele fica pendurado na sacada, não sei como não despenca dali de cima. Se ele cai garanto que quebra pelo menos uma perna. E as luzinhas? Como a cidade fica piscando, meu pai! Confesso que alguns tipos são bonitos e elegantes. Mas o excesso é a alegria do brasileiro, pode ver pelo Carnaval. Não precisa de trilhões de luzes, por favor. Alguém avisa?


Dezembro aparece. Correria, correria, correria, final de ano, lojas cheias, supermercados cheios, ruas cheias, tudo cheio, eu fico cheia. Dá vontade de mudar para Marte e morar com algum alienígena. Não esqueça de um detalhe importante: tudo cheio em dias muito quentes, pois em dezembro o calor piora. Porto Alegre vira um inferno. Então o Natal vai chegando, preocupação com a toalha da mesa, com a toalha para secar a mão que fica no lavabo, aquelas coisas todas, você sabe, tudo tem que ter um Papai Noel costurado, afinal, é Natal, uhu. Não gosto daqueles figos nojentos que alguém disse que é bom e bonito deixar junto com o peru. O peru fica lá, apertado entre pêssegos, figos e sei lá mais que fruta em calda. Aquilo me revira os olhos, detesto figo de qualquer forma. Grande noite, muitos sorrisos, abraços em pessoas que você não vê em outras datas, a não ser no Natal, ceia, troca de presentes, algum tio bêbado vestido de Papai Noel, alguma criança esperta que puxa a peruca e a barba e descobre que aquele é o tio bêbado, choro de desilusão da criança que conta para as outras crianças, tumulto. Odeio tumultos. A noite do dia 24 termina, ainda bem. No outro dia o almoço é peru gelado com figo gelado com tudo que você já viu na véspera, a única coisa que muda é a cara de ressaca da parentada. Você sobrevive e começa a se cuidar, pois na próxima semana tem o novo ano. Planos, projetos, listas, quero ser melhor, em 2009 vou fazer e acontecer e vou deixar de ser tão bestalhona em alguns assuntos, vou ligar mais pra minha avó, vou ser mais paciente com quem me rodeia, não vou ser tão cabeçuda e blá-blá. O ano novo chega, você lembra de tudo de bom e de ruim e daquele figo horroroso no peru e chora. Você sempre chora quando muda o ano, chora ao lembrar de tudo o que foi bom, chora ao pensar na sua vida, a vida e os balanços, a vida e as retrospectivas, a vida e a vida.


Janeiro e fevereiro. Praia, calor, céu lindo, todo mundo pegando uma cor. Você odeia janeiro e fevereiro e férias de verão. Seria muito melhor ir pra um lugar que estivesse bem frio, de preferência nevando. Você é exagerada, tudo bem, nem precisava nevar, nem estar tão frio, mas calor assim só faz na casa do demo. Enquanto todo mundo se preocupa com o bronze você pensa em um jeito de fugir do sol. E a sua cidade é quente e muito quente e cheia de lagartixas. No verão elas adoram aparecer nas paredes de casa, principalmente nas do seu quarto. É o verdadeiro inferno: calor e lagartixas passeando. Só existe um lado bom do verão em Porto Alegre: a cidade fica mais tranqüila. Mas juro que eu adoro março. Em março a vida volta a funcionar. É que é assim: em novembro o povo começa a se preocupar com o Natal, o Natal chega e a preocupação é o novo ano, o ano começa e a preocupação são as férias no Ceará e depois que você volta mostra as fotos pra todo mundo e começa a se preocupar com o Carnaval, êê, Carnaval. Eu detesto Carnaval, acho uma putaria danada. Depois do Carnaval é que o ano começa de verdade. Me enganei, você precisa tirar uns dias de descanso depois dos agitos carnavalescos.


Vou aproveitar o meu último dia. Depois, nem sei. Acho que vou arrumar um bom sonífero e dormir até março do ano que vem.

manifestações

ei, ei, peraí, gente boa.
eu juro: não faz uma hora que postei o texto abaixo e já tem gente indignada enchendo a minha caixa de e-mails.
"que porra é essa? não acredita em deus?"
não vou me explicar. não mesmo. apenas digo: leia o texto e reflita sobre ele. existe todo um contexto pra eu ter falado que "se é assim...blá blá blá...deus acaba de deixar de existir."
credo, quanta rebeldia! outro dia, no site, escrevi sobre o aborto. povo ficou rebelde. agora o tema cutucou deus e mais rebeldia. é a vida. só digo isso, é a vida. e afirmo: se deus perdoa esse tipo de gente pra mim ele não existe.

Deus existe?


Tenho certeza que não sou a mais normal do mundo, mas acho que não sou a mais anormal que existe por aí. Ando um pouco cheia de tudo, sabe quando você tem consciência de que tem um zilhão de coisas para fazer? O óbvio seria preparar uma lista com todos os afazeres e cumprir com tudo bem certinho. Mas, sei lá quem me fez assim, não faço coisas certas. Não culpo o fim do ano, nem o fim da faculdade (posso colocar a culpa no fim do mundo? outro dia disseram que os et's iam dominar a Terra), nem o fim de nada, o que eu preciso é de começo. Começar a me organizar de uma maneira que eu me entenda. É muito difícil, será? Porque juro que não me entendo. E será que eu deveria?


Estou escrevendo - ou tentando - um livro infantil. Rá, logo eu. Adoro crianças, me dou tri bem com elas (usei o gauchês agora). Você sabia que é extremamente difícil escrever para o público infantil? A linguagem tem que ser simples, mas não dá para tratar as crias como bobalhonas, pois de bobas elas nada têm. Fica complicado não derrapar ou escorregar na abobadice. Estou escrevendo - ou tentando - um livro para a mulherada. Não, não é nada feminista, mesmo porque detesto as feministas. É um livro, apenas. E não posso falar mais a respeito do assunto, me perdoe. Agora você perguntará: e o outro livro? Bem, ele é de crônicas. Bem, quando eu tiver maiores informações passarei adiante, pode deixar. Vamos voltar ao livro infantil: que dificuldade! Ontem passei o dia inteiro diante de uma página de caderno. Volta e meia escapava uma frase, mas eu estava em um dia antipático, olhava para a Senhora Frase com cara muito feia, arrancava a folha e lixo nela. Detesto quando isso acontece. É a Síndrome da Página em Branco. Sou cheia das síndromes, mas a da Página em Branco fazia tempo que não dava as caras. Ontem ela me atormentou ao extremo, quase perdi as estribeiras e enchi ela de desaforos.


Já que as horas foram passando e nada acontecia, liguei a televisão. Eu odeio o ser humano. E o Brasil. E a justiça, que é lenta e nem sempre correta. Uma notícia me revirou a alma: uma menina de 18 anos, deficiente mental, ficava entre a cama e a cadeira de rodas. Perceba que a idade mental dela era de dois anos. Sabe o que aconteceu? O padrasto dela (desgraçado!) estuprava a menina no chão da sala, quando a mulher saía. Durante dez dias, uma vez ao dia. Ele contou, numa entrevista, que no comecinho ela chorava e depois parava, "acho que depois ela começava a gostar". Hein?!? Como assim, Deus meu? Depois o crápula, ao ser informado que ficaria preso, pediu "pelo amor de Deus, eu vou voltar pra igreja, eu estou arrependido, não vou mais fazer mal pra ela". Que tipo de pessoa é essa? Em que mundo a gente vive? O que leva alguém a cometer tamanha atrocidade? Fiquei chocada, revoltada, com dó, com ódio, com tudo.


Estupro é coisa muito séria. Não entendo que tipo de pessoa pode sentir prazer obrigando alguém a fazer sexo. Doença? Falta de vergonha na cara? Falta de capacidade para transar com alguém? Sei lá, pode ser tudo junto ou separado, tanto faz, o fato é que é revoltante, horrendo, nojento. Colocar um revólver ou uma faca no pescoço de uma mulher e obrigá-la a abrir as pernas é a situação mais horrorosa que já vi. O que me deixa de boca aberta é que esses malditos tocam no nome de Deus. Não sou crente, nem tenho religião formada, mas penso da seguinte forma: não faça uma cagada fenomenal e depois use o nome de Deus para limpar a sua barra. Teve um cidadão que ficou invocado com a ex-namorada e resolveu estuprar a filha dela. Detalhe importante: a filha tinha quatro meses. Você leu bem, quatro meses. E ele também falou em Deus. Como pode uma coisa dessas? Esses filhos da puta perderam a noção de tudo, de certo, errado, saudável, doentio.


Isso me faz pensar em uma questão mais antiga: as pessoas já nascem boas e ruins? O mundo está cheio de monstros, eles nasceram assim ou as circunstâncias fizeram com que eles se tornassem dessa maneira? Existe algo que defina que uma pessoa será boa ou má? Sei que existe todo um contexto social, econômico, cultural, mas gostaria de entender como esses desgraçados existem. Um outro falou que a culpa era da cachaça. Peraí, não me venha com essa. Ele, por óbvio, também disse que vai se atirar nos braços da religião. Isso é revoltante: a cadeia está repleta de assassinos, estupradores, ladrões, bandidos, filhos da puta. Todos eles, em um determinado ponto da vida, resolvem meter Deus na jogada. Deus não pode carregar essa gente nas costas, é peso demais.


Um garoto mora no morro, é filho de uma mãe faxineira e de um pai traficante. O pai é assassinado. O irmão dele vira aviãozinho e ele decide ir para a escola e ser um menino "direito". Invenção minha? Não, acontece. E por qual razão o irmão e ele são tão diferentes, por qual motivo eles seguiram caminhos opostos? Foram criados da mesma forma, tiveram acesso as mesmas coisas, receberam (ou não) o mesmo carinho e cuidado. Morar no morro, ser pobre, passar necessidade, nada disso é garantia de que um menino vá se tornar um delinqüente. Tem muita gente pobre batalhadora. Muita gente que mora coladinho com traficante que tem uma vida digna. Não podemos generalizar. O que eu quero mesmo é saber como pode alguém se tornar cruel a ponto de ferir outra pessoa, não entendo uma coisa dessas, por favor, me explique!


Depois me chamam de radical, mas eu sou a favor da pena de morte. E para mim o pior crime do mundo é o estupro. Não adianta colocar Deus no meio das merdas que já foram feitas. Se é para pensar em Deus, que pense antes de agir. Depois não resolve, por melhor que Deus seja, Ele não salva. Agora você me desculpe: se Deus perdoa um cara que estupra uma deficiente mental ou um bebê de quatro meses (ou qualquer outra mulher saudável e adulta), sinceramente, não sei que Deus é esse. "Somos todos iguais perante Deus" uma pinóia. Se Ele é capaz de perdoar esses malditos, para mim Ele acaba de deixar de existir.

"Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi: Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe."

(Caio Fernando Abreu)

Falam tanto nele e dele. Nos dias de hoje falam porque é modernoso dizer. É graciosinho falar que gosta do Caio (Caio, repete aí, olha que nome lindo e forte). Meu MSN tá repleto de criaturas com nicks e frases dele. Frases de efeito, bonitas, impactantes. Mas é moda, tudo moda. Sempre achei que a moda vem de dentro e não de qualquer Fashion Week, revista, gente renomada que diz ou estilista. Sério, nem sempre o que tá na moda fica bem em você. Tem que abrir o olho e fazer as próprias escolhas. Além do mais, desculpa, mas tem coisa que tá na moda que é feia de doer. Duvido que alguém queira ficar feio, ainda mais um feio de doer. Ei, seja bonito e crie a sua moda. No orkut a moda-Caio também pegou. Profiles e mais profiles com citações. Acho uma babaquice, mesmo. Desculpa, não sou a garota-amarga-e-enxaqueca, mas acho que o Caio merece respeito. A obra dele, idem. Caio Fernando Abreu funciona assim: você pega um livro, qualquer um. Lê ele inteiro. Ri, chora, sublinha, rabisca, sonha com as frases, as páginas te estapeiam a cara, mas você gosta de apanhar. É amor à primeira vista. Ou ódio, pois a minha mãe acha ele um depressivo e maluco chato. Cada um com a sua opinião. Mas não gosto dessa coisa de modinha. Ele morreu há dez anos, conheço os seus textos antes da sua partida pra outro lugar. E sei, sei mesmo, que ele foi pra um lugar bonito. Acho que quem sente bonito, quem escreve bonito, eu acho, são só achismos muito pessoais, mas acho que quem é assim, sei lá, quando morre vai pra um lugar bonito, muito bonito. Se você não o conhece, por favor, pesquise. Entre na vida, nos livros, na intimidade dele. Depois fale, coloque as frases. Ou esqueça tudo o que eu disse, as pessoas são livres. É que não sei, pra mim ele significa tanto! Tanto, mas tanto, que não pode ser resumido em uma palavra ou frase só pra mostrar que a pessoa lá tem um coração qualquer que bate de vez em quando. Sim, quem coloca frase ou trecho dele sem nem conhecer direito quer mostrar pro mundo que tem qualquer sentimento, seja ele qual for.

Coloquei o trecho, fui escrevendo sobre ele e esqueci de dizer o principal: ele sabia das coisas, sempre.

A batalha invisível


Lavar louça é que nem andar de bicicleta, pois você nunca esquece. Qualquer pessoa no mundo com o mínimo de coordenação sabe lavar louça, não requer muito conhecimento, pois é só pegar a esponja, o detergente, o prato e tchá-tchá-tchá, liga a torneira e chuá-chuá-chuá. Pronto, tá limpo. Andar de bicicleta não é bem assim, leva tempo. Primeiro você anda com rodinhas, ganha confiança, segurança, andança e de vez em quando até lambança, pois pode cair e se esborrachar inteira. Depois vem a parte boa, o equilíbrio, a sensação de liberdade. Se andar na beira da praia o cheiro de liberdade aumenta - e de vez em quando a sua força também, pois às vezes o vento está de mal com a gente. Beijar na boca é que nem andar de bicicleta, pois é inesquecível. Qualquer pessoa no mundo que tenha língua sabe beijar na boca. Olha aí a sua cara duvidando de mim! Sei que você está lembrando daquele um do final de semana, aquele que beijava de um modo estranho, enfiava a língua e girava-girava-zum-zum-que-nem-enceradeira-fora-de-órbita. E você está recordando aquela uma que colocava só a pontinha da língua na hora do beijo. A questão aqui é o saber beijar e não se os fofonildos beijam bem. Beijar bem é outra história, mas lembre sempre que o beijo para ser bom tem que haver uma sintonia de olfato e lingual. O cheiro diz tudo, diz muito, muito mais do que você supõe. Beijo ruim ninguém esquece, beijo bom também. E andar de bicicleta?


Você deve ter percebido que estou insistindo na bicicleta. Sabe por quê? Não, não é pelo benefício que traz para a saúde. E traz mesmo, viu? Faz bem para o coração, a alma, o espírito, te livra do sedentarismo e deixa a coxa bem dura, além dos glúteos e das panturrilhas firmes. Que belezura! Hoje vou um pouco além: bicicleta é sinônimo de equilíbrio. Acho graça das frases feitas que dizem blá-blá-blá-é-que-nem-andar-de-bicicleta. Não acho. Eu entendo o que existe por trás das frases feitas, é para sugerir que determinada situação/coisa/fato/evento não tem como esquecer. Mas tem, pode acreditar. Tudo é esquecível, a nossa mente é repleta de curvas e estradas de terra que levantam poeira e essa poeira nos cega e nos dá um gosto péssimo na boca.


O que você busca na sua vida? Um apartamento espaçoso o suficiente para ter cachorros e uma estante enorme para abrigar e proteger os seus livros. O que mais? Bons amigos, aqueles de fé que não desligam o telefone na sua cara quando você resolve ter uma crise histérica às três e quarenta e sete da manhã. O que mais? Menos trabalho, mais férias, menos gente de cara amarrada, mais educação e gentileza nas ruas, menos isso, mais daquilo e, por favor, um alguém que faça o seu coração sossegar e ter um colinho para descansar no fim do dia cheio no escritório. Digamos que você já tenha tudo isso, hum? Você quer o quê? Um nariz mais bonito, um cabelo mais comprido, um aumento de salário, um tudo sempre maior e exagerado. Hoje em dia ninguém se contenta com pouco. Não falo de ter visão limitada e ser acomodado, falo do simples, insisto no simples, ele importa tanto!


As pessoas atualmente só querem, querem, querem. E o que elas fazem por trás de tudo isso? Umas se empenham, outras se esforçam ao extremo e algumas ficam esperando o tudo tudo tudo aparecer no meio da sala. Plim, materialização dos sonhos. Você sonha com uma casa nova? Plim, está aí a casa. Você sonha com um cara boa pinta? Plim, aproveite, a safra é 1975, um bom ano. Parece que o principal é o trio amor-trabalho-lar. É claro que existem outras coisas, tem a saúde, então você vai vez ou outra ao médico, faz exames, vê que tudo está bem e relaxa, segue se exercitando, não come tanta carne vermelha, usa filtro solar todos os dias, passa todos os cremes que a dermatologista indicou, aparece para visitar o dentista de seis em seis meses, bebe só aos finais de semana e tá tudo bem, obrigada. É claro que existe a família. Você visita a sua mãe todos os domingos, almoça com o seu pai aos sábados e dá um pulo na casa da sua avó às terças-feiras. Com os amigos você mantém contato durante a semana, via e-mail, telefone e o que mais estiver dando sopa. Você se encontram para um happy hour e aos finais de semana sempre tem aquela reuniãozinha de costume. Mas o trio que mais tem peso na sua vida é amor-trabalho-lar.


Você ama a sua casa, hoje ela está exatamente do jeito que você quer, a sua cara, tem o seu toque, é o melhor lugar do mundo. O seu trabalho de vez em quando é genioso, tem vontade própria, mas nada que um bom papo e um abraço não resolvam o problema, afinal, ele é bem seu amigo. O seu amor é o amor da sua vida, lógico que tem defeitos, mas todo mundo tem, fazer o quê? O seu trio está completo, quase perfeito, você dorme e acorda com a pessoa que você escolheu para dividir a vida, depois vai para o trabalho querendo ir para o trabalho (observe que isso tem um peso grande: tem gente que levanta já reclamando, pois odeia o que faz) e no final do dia chega em casa adorando olhar para o chão, as paredes, a decoração. Que vida feliz. Você dorme bem, respira bem, vive bem e nada deveria te incomodar. Mas incomoda.


Nós somos seres humanos, isso faz toda a diferença. Buscamos tudo, queremos o exagero, seja ele de sentimentos ou de coisas. Ainda prefiro os sentimentos, prefiro deixar o lado materialista fora da jogada. É claro que determinados confortos são fundamentais para vivermos bem e com tranqüilidade, mas detesto gente que só pensa em carrão, casarão, dinheirão. Menos, por favor. Esses são os que não conseguem admirar uma paisagem bonita, são os que não se emocionam ao ver um macaquinho no zôológico pegando um pedacinho de fruta e dividindo com o seu companheiro de jaula. Esses são os que não param para ouvir o barulho da chuva ou para ajudar uma senhorinha que caminha mais devagar que uma lesma com enxaqueca a atravessar a avenida movimentada. Não gosto de gente assim, na verdade eu desprezo pessoas desse nível. Elas estão ocupadas demais tentando ser ão. Ter ão. Manter o ão. Buscar mais ão. E não sabem o que é simplicidade.


Vivo me policiando porque quero tudo sempre e é bem difícil lidar com essa compulsão por sentimentos, já que o sentir em excesso atrapalha, pois se torna complicado a busca pelo equilíbrio. Vivo tudo o tempo inteiro com intensidades absurdas e em doses muito grandes e é quase impossível ser estável, deve ser por isso que sou tão inquieta. Acho que muito mais do que coisas e pessoas e trabalhos e casas de revista nós deveríamos fazer esforços diários para aprendermos a andar de bicicleta. Não aquela que todo mundo conhece. Falo da bicicleta interna, emocional, invisível e silenciosa que todos nós temos. Pena que nem sempre temos capacidade e paciência para procurá-la.

Verdade amputada


Outro dia falávamos sobre mentira em uma mesa de bar. Eu e você sabemos que vivo falando outro-dia-e-talecoisa. É que, de repente, assim, quem sabe, a minha vida é cheia deles: os outros dias. Assim como é muito cheia de mesas de bares tudo-no-plural-mesmo-cheio-de-ésses, só os copos é que (por que será?) ficam vazios, vazios. Sinto muita sede, fazer o quê?


Uma vez, lá atrás, Cazuza falou a respeito das mentiras sinceras. Outro dia escrevi um texto (lá atrás também, nem lembro em qual ano, mas eu já era grande e sabia ir ao banheiro sozinha) falando sobre as verdades sinceras. Mentiras sinceras não me interessam, nunca interessaram. A verdade pode até ser meio dolorida, mas sabe que dói menos do que uma mentira descoberta? A única mentira permitida é aquela na fase de tpm amor-tô-gorda? Sendo que você está com três quilos a mais, inchada, espinhenta e com os hormônios fazendo hora extra em sábado chuvoso. Não-meu-bem-você-é-linda. Ai, tem certeza? Tenho-meu-amor. Não tô gorda mes-mo? Não-imagina-bem-capaz-deixa-disso-vem-cá. Beijo na boca, assunto encerrado, coitado do sujeito que é obrigado a conviver com uma mutante-demente-em-matéria-de-humor. Se bem que eu tenho uma teoria. Eu e você sabemos que vivo falando das minhas teorias-e-palavras-inventadas-e-talecoisa. A teoria é: mais vale viver ao lado de uma louca do que de uma moscona. Tem muita mulher mosca morta por aí. Mulher Serenus, conhece? Sempre calma, controlada, ri baixo, sorri que nem a Lady Di, os gestos são meticulosamente calculados, elas nunca caminham rápido e deus-o-livre, elas não falam puta-que-pariu-me-fodi. Entonces, baby, é mais melhor de bom viver ao lado de uma louca.com. Rimou. Eu e você sabemos que vivo rimando palavras nada a ver e talecoisa. Pois bem: viva ao lado de alguém viva. Agora algum engraçadinho dirá: moscas também são vivas. São, e como são! E pousam em tudo, inclusive em cima da merda, depois vão direto para o seu pedaço de pão com gergelim, eca, que nojinho. Esqueça a mosca morta e fique com as moscas em geral, aliás, não fique. Fique com as mulheres loucas, são as que farão a sua vida mais feliz, cheia de pimenta que arde a língua, cheia de açúcar que dá sede, fique com as mulheres que lhe tragam sensações. As mosconas sempre dizem que tudo-está-bem. Vamos ao cinema? Aham. Vamos jantar? Aham. Escolhe o lugar, benzinho. Ah, tanto faz. Moscona sempre acha que tanto faz. Existe a falsa mosquinha, que é aquela que finge-e-por-isso-é-falsa. Funciona assim: ela até se impõe, mas na hora H, I, J a bendita assume a mosquice que a acompanha desde o nascimento. Não consegue sustentar uma discussão, não tem como manter um argumento. Não existe curso pra tirar a mosconice do corpo, se você nasceu com ela certamente morrerá abraçada na mosca-rainha. Desculpa, tem que esperar até a próxima encarnação e torcer para nascer fora da Moscolândia.


Vamos ao outro dia, não era primeiro de abril, mas a mentira acontece muito mais de uma vez por ano. Não vou dizer que nunca menti, já sim, para não magoar. Uma amiga, em estado de depressão beirando o suicídio (coisas da vida real) perguntou se ela era feia. E ela é um dragão mais velho que a Dercy Gonçalves antes da morte, tem orelhas de abano maiores que as do Dumbo, parece uma anoréxica cheia de costelas se cumprimentando, tem a voz fina e fina e tão chata que nem vou me deter neste ponto, até os homens guatemaltecos fogem dela; não bastasse tudo isso ela ainda pensa que é modelo e usa roupas que só ficam bem na passarela e olhe lá, fuma feito uma égua nervosa e preocupada e é dona de peitos minúsculos, parece um menino. Um menino feio, não esqueça. Mas ela queria terminar com a própria vida, como eu ia dizer todas essas palavras lindas a respeito da (falta de) beleza da moça, essas que acabei de dizer pra você? Não, amiga, você é linda. Lembro que o "linda" eu pronunciei mais baixo, tanto é que ela me pediu "repete". Você é "linda". Hein? Putz, como ela ainda não tinha ouvido? Amiga, você é linda, linda, linda, linda, linda. Travou o meu sistema, eu parecia um robô e fiquei no linda-linda-linda-linda-linda até que minha boca secou e saí correndo pra cozinha pra tomar alguma coisa. Essas coisas que nós tomamos em mesas de bares. Tudo no plural, muitas mesas, muitos bares. Muitas águas. Você sabe que eu sou saudável e talecoisa.


Já menti na escola. Clarissa, cadê o trabalho sobre as planícies litorâneas? Desde pequena sou artista, não sei como a Globo ainda não me achou, se eu colocasse o meu pé lá certamente ia ganhar mais do que a Grazi Massafera. É que eu soube que por cada campanha publicitária ela ganha quinhentos mil reais. Cada campanha. Quinhentinhos. Tem também aquelas outras, as mais chinelinhas, a Mulher Melancia, Filé, Maçã, Melão, Salada de Frutas. Não sei por qual razão eu terminei a escola, entrei na faculdade e estou me formando. Era bem mais fácil sacudir a buzanfa no eixo Rio-São Paulo, algum sem glória ia me agenciar e pronto, sucesso. Clarissa na tv. Mas não nasci pra balançar a bunda, nasci pra falar sobre coisas em mesas. De bares, muito bem, você já bebeu o espírito da coisa. Quanto ao trabalho, eu matava a família. Professora, não fiz, o meu avô morreu. Ele vive lá no céu mesmo há mais de dezoito anos. Mas ele morria muitas vezes, pra muitos professores. Clarissa, tirou nota baixa na prova. É que a minha tia, a minha tia preferida...pausa para o choro. Suspiro. Funga-funga. Retomando a frase: ....é que a minha tia preferida, ela está muito doente, acho que não resistirá até o final do mês. Todo mundo se comovia. Não que eu gostasse da comoção, odeio essa coisa de pena de cá, pena de lá, mas eu tinha que livrar a minha cara. Funcionava mais ou menos assim: eu gostava do fundo, do agito, da bagunça e o meu grupinho era só da galera marginal. Gente que matava aula, jogava sinuca, dava presença e caía fora. Justamente por isso é que de vez em quando a gente se ralava em provas. Mas depois sempre me dava uma coisa muito louca e eu estudava feito condenada, então passava de ano. Só que eu estava sempre pendurada, com a corda no pescoço. E passava com as calcinhas na mão. Entendeu que a minha mentira era muito útil?


Menti muito nesta vida para a minha avó, pois ela me dava presentes pavorosos. Gostou, minha filha? Adorei, vozinha. Mesmo? Uhum, achei lindo. Pensa comigo: ela é velhinha, aposentada, gasta o pouco dinheiro que ganha em presentes escolhidos especialmente para me alegrar. Sou obrigada a mentir. Se eu disser que acho tudo horrível, coitada, vai ficar desiludida. Houve alguma intervenção divina, pois nos últimos anos ela deposita um dinheirinho na minha conta, ao invés de me dar cacarecos inusáveis. Inusáveis são coisas que não dá pra usar, creio que você entendeu, palavra nova, você sabe que eu amo isso, talecoisa. Já menti pra fazer o outro feliz. Olha, ele estava morrendo de saudade de você. Mentira, ele disse que nem sentia a falta dela. Menti, ora. Gosto de ver os casais atirados no romance, naquela coisa que envolve, embala, sabe? Antes que eu me perca falando do lado Cinderela de cada um, acho importante dizer que todas as mentiras nunca foram pra enrolar, enganar, prejudicar alguém. Já me prejudiquei por mentir, claro que sim. Minha consciência me cobrava em alguns momentos. Sei que é feio mentir, é errado, mas eu precisei em muitos momentos pra passar de ano, pra não apanhar de amiga, pra não ver uma suicida se jogar pela janela, pra tentar reconciliar casais e pessoas queridas.


Outro dia uma amiga disse que estava muito decepcionada com o namorado, pois ele havia mentido. Vou contar uma breve historinha. O namorado bem antes, muito antes, era um não-namorado, ou seja, era uma criatura sozinha, livre, desimpedida, papador de mulheres. A minha amiga bem antes, muito antes, era uma não-namorada, livre, freqüentadora de botecos, beijadora de algumas bocas masculinas e só. Então em um dia que nem lembro qual eles se conheceram, sorriram, oi-oi-muito-prazer, beijaram, gostaram e o negócio foi indo. Até aí tudo bem. Pausa para a explicação: o namorado era o tipo safadinho e tinha amigos do mesmo naipe. Eles passavam o rodo e deixavam a mulherada maluca, pois são do tipo famosinhos-todo-mundo-quer-provar. O namorado tem, em especial, um amigo que é muito, muito mal falado e conhecido de uma forma horrorosa no meio feminino. Ele é o terror em forma de gente. O canalha em forma de homem. Volta pra historinha: minha amiga estava com a garganta inflamada (não sei o que ela andou fazendo) e o namorado tinha muito trabalho. Amor, vou trabalhar em casa. Ela mal conseguiu dizer tudo-bem-não-tem-problema. No outro dia ele contou que o Claudinho passou na casa dele e disse ei, véio, vamos jantar. E ele foi jantar com o Claudinho, mas amor, vê bem, só fui jantar e voltei pra casa, afinal, eu tinha muito trabalho e por isso que numa sexta à noite eu não dormi com você, afinal, você estava com dor de garganta e precisava de cuidados. Tudo-bem-não-tem-problema. Duas semanas depois a minha amiga, já com a garganta novinha em folha, deu uma espiadela no celular do namorado (não faça isso em casa, é total falta de respeito). Achou o quê? Cinco ligações do amigo muito mal falado e conhecido de uma forma horrorosa no meio feminino, além de uma mensagem (tecnologia é tudo, mas lembre: não faça isso em casa): cara, muito boa a noite ontem, a Vanessa pediu o teu telefone e eu dei. Uóuóuó, sirene, ambulância, polícia. Ela sentiu vontade de matá-lo com um machado bem afiado. A Vanessa podia ser uma amiga, a Vanessa podia ser até lésbica, a Vanessa podia ser um traveco, vai saber? O fato é a mentira em si. Ele disse o seguinte: não falei porque você não gosta do fulano e fala super mal dele. Nós só fomos tomar uma cervejinha, nada de mais. A Vanessa é a garçonete, ela queria uma consultoria jurídica, descobriu que eu era advogado e patati-patatá. E a minha amiga não é trouxa.


Penso que a mentira tem alguns níveis, os saudáveis, os não-saudáveis, os enroláveis e os nunca perdoáveis. Mentirinha saudável é quando você mente pra não magoar. Mentira enrolável é aquela que a gente diz pro professor de educação física. Olha, eu tô morrendo de cólica, não posso correr um dez mil metros hoje, meu médico disse pra eu ficar assistindo a sua aula. A mentira não-saudável foi a que o namorado da minha amiga contou. Sabe por quê? Se era só uma cervejinha, se não era nada de mais, ei, não avisou por quê? Porque você ia ficar enchendo o saco, essa foi a resposta dele. Enchendo o saco, muito bem. Então, amorzinho, minha garganta está doendo (cara de dor), vou dormir cedo (bocejo seguido de esfregada nos olhos), tchau (abre a porta pro rapaz ir embora). No outro dia uma amiga liga dizendo que a sua carteira de identidade ficou com ela. Como, amor? Ah, é que a dor de garganta passou assim, bem de repente, me arrumei e fui com as meninas no Clube das Mulheres, vi um monte de homens tirando a roupa, inclusive um deles me chamou lá no palco e eu fui, dancei de corpo colado e fiquei louca de vergonha, pois eu estava de saia e ele estava com o parceiro dele de fora, balançando na minha bundinha. E não avisou por quê? Ah, porque você ia encher o saco. Olha, garanto que antes de você terminar a frase o namorado já foi embora cantando pneu. Mentira não-saudável, pense o seguinte: se namorar é encheção de saco simplesmente não namore. Insisto no fato de que se a cerveja não tem nada de mais, beba a cerveja e diga a verdade. Não importa a companhia, o lugar, a hora que vai, namoro não é prisão. Acho péssimo quem tem que pedir permissão pra sair, peraí, ninguém tem 10 anos pra pedir pra mamãe se pode ir ao cinema com a Lucianinha, me leva que a mãe dela busca, mãe. Mas se a namorada enche o saco por tudo, troca de namorada. Ou fica sozinho, assim ninguém enche o saco, por tudo ou nada. Simplinho, vamos descomplicar a vida.


Nunca perdoáveis. Pra mim a traição é imperdoável, pode vir ajoelhado, pode cantar em japonês, pode passar vinte e nove dias chorando, pode caminhar em cima de caco de vidro. Não perdôo. Acho uma falta de tudo. Mas não condeno quem perdoa, pois acho que cada um sabe do seu relacionamento. Creio que quem tudo bem resolvido numa relação não trai. E se tiver vontade de consumar o fato, por favor, que tenha a decência de dizer olha-não-dá-mais-ando-a-fim-de-outras-bocas-e-cheiros-e-corpos. Então vai embora, vagabundo. E não volta, porque a gente tem que ter amor-muito-próprio. E ele tem que ter estoque, ouça o que eu digo.


Alguém vai falar que quem-mente-que-a-tia-vai-morrer-mente-que-ficou-em-casa-quando-na-verdade-tava-fazendo-sexo-selvagem-com-o-clone-do-Richard-Gere-versão-mais-jovem. Não. Eu disse que existem mentiras e mentiras. Assim como existem verdades e verdades. Você sempre sabe o que está fazendo, por mais que ache que não saiba. Uau, que profundo, não? É a mais pura verdade: vale a máxima do não faço com os outros o que eu não gostaria que fizessem comigo. Se a minha amiga tivesse saído pra uma cervejinha com aquela amiga putona que ele detesta e ele tivesse descoberto após uma futricação no celular dela, garanto que a casa ia cair. Mas a casa continua lá, intacta. Porque homem não mexe em celular de mulher. Homem só mente. Mulher é que mexe em celular de homem. E mente. Nós somos os seres mais perigosos do planeta. E ainda conseguimos simular choros. Como diria Bóris Casoy, isto é uma vergonha!


E agora?

Eu sei que a gente possui mil maneiras de dizer a mesma coisa. Pensando bem, mais de mil. Não entendo como surgiu essa coisa do mil-vezes-mil-anos-mil-notícias. De mil e uma, só as noites. Ou o Bom Bril, mas aí é o quesito utilidade que entra em ação. Por falar em utilidade, hoje descobriremos os três passos (ou seriam doze?) ou as três formas ou os três dê-o-nome-que-quiser mais finos de mandar uma pessoa tomar no meio do rabo.
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Tudo começa a partir de um fato. Em cima dos fatos se jogam os argumentos. Em cima dos argumentos as suposições. Vira uma suruba fatal, todo mundo se querendo. Mas, entenda, tudo começa a partir de um fato. O fato em si pode ter um fator desencadeante ou estimulador da coisa. A coisa em questão é a mini-gota-e-pode-ser-até-de-suor que faz tudo transbordar. Porque paciência tem limite, saco também, uma hora ele fica cheio e fura. Se for aqueles de supermercado então, nem te conto, eles são umas porcarias, furam em seguidinha. Eis que temos o fato. Eis que o fato dá embrulho estomacal. Eis que você é uma pessoa educada na Suíça, Escola para Moças, bem articulada, a mamãe passava talco na bundinha que antes era branca e hoje permanece com o mesmo tom, porém deixou de ser bundinha e virou bundão. Bunda com sustância ou substância ou dê-o-adjetivo-que-quiser-mas-seja-elegante-afinal-o-papo-aqui-é-elegância.
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Não digo que paciência é o meu forte, mesmo porque desconfio ser portadora de alguma doença mental. Não me pergunte o nome, não sei e na verdade nem quero saber, não vejo razão em descobrir nomes de doenças mentais. A paciência certamente não é a minha melhor amiga, mas preciso te dizer que a educação é. Às vezes eu me incomodo comigo mesma, não sei em que parte do mundo os meus pais estavam com a cabeça quando me ensinaram a ser educada. Come de boca fechada, dá bom dia, boa tarde e boa noite, pede licença, pede por favor, agradece, cumprimenta a tia velha cheia de hemorróidas, não ri quando alguém cair e se estatelar no meio da rua, cede o teu lugar para os mais velhos, não fala palavrão, não senta de perna aberta, não grita, não briga na escola, respeita os outros, não bate no teu irmão, não mata as formigas, não mata as pessoas, não rouba, não furta, não foge pra Tailândia, não, não, não. Aí eu cresci e virei educada. Como de boca fechada, cumprimento todo mundo na chegada e na saída, dou todos os bons dias, tardes e noites, peço por favor e agradeço, cumprimento a tia velha hemorroidenta, cedo o lugar para os mais velhos e não mato, não roubo e não furto. Mas tenho vontade de fugir pra Tailândia. Falo palavrão pra caralho. Sento de perna aberta na frente dos amigos mais chegados. Já dei muita mochilada em moleque pentelho, mas isso faz uns quinze anos. E eu brigo. E é muito.
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Tenho um gênio endiabrado, entenda como quiser. Em uns dias acordo saltitante, em outros bem quieta, querendo paz. Às vezes procuro briga, juro, não sei o que acontece, vou futricando tudo, remexendo em troços que estão nos lugares certos, mas eu gosto de bagunça, vou lá e tiro tudo do lugar. Procuro problemas. Procuro problemas desesperadamente. Depois, quando enlouqueço por causa deles, fico me perguntando: quem neste mundo sofre mais do que eu? Madalena arrependida, Maria do Bairro, Regina Duarte sofredora das novelas do Maneco. Às vezes eu canso de sofrer. E viro má, muito má. Paola Bracho, Branca Letícia de Barros Mota (não tenho culpa se você não vê novela, hein?), Nazaré. Quando eu viro a má-muito-má me dou conta de que nunca vou conseguir ser má-muito-má. É tudo tipo, tudo charme, tudo personagem, tudo nada. Lá no fundo ainda não consigo matar. Não pense que tenho uma veia assassina, não consigo matar a minha mania de ver o lado bom das coisas. E de vez em quando, eu te digo, é ele que me mata.
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Falei que existem três passos, só que o três em questão é só pra dar um número qualquer. Eu podia gritar, berrar, dar um tapa no meio da cara, dar dois tapas no meio da cara, dar chute, pontapé, voadora, puxão de cabelo. Podia descobrir nome, telefone, endereço. Podia fazer chantagem emocional. Podia ir na delegacia. Podia chamar o FBI. Podia simplesmente pedir pra você parar de encher a minha vida de porcarias. Podia dizer que não me importa o que passou, pois p-a-s-s-o-u. Podia dizer que, apesar de você ser uma coitada-infeliz-mal-amada-mal-comida-e-mal-tudo, você me rende um texto. Podia continuar nessa idiotice de me dar ao trabalho de ler os seus e-mails. Podia te esperar em uma esquina qualquer e te dar uma bolsada no nariz. Podia ir no programa da Márcia. Podia contratar um advogado e mandar te processar. Podia mandar a sujeitinha ali da vila te dar uma coça. Ou duas sujeitinhas da vila. Ou cinco sujeitões, aí sim, você ia morrer de medo. Eu podia dizer muitas coisas, fazer muitas coisas, ser má-muito-má. Mas eu sou boa-muito-boa e não sei fazer isso. Então me limito a te mandar tomar no rabo. Bem no meio. Com todas as letras. Vai-tomar-no-rabo. Vai-tomar-no-meio-do-rabo. Bem no meio dele. E, mesmo tomando, espero que ainda assim um dia você seja feliz.

Novos olhares



(Porque quando existe um sentimento forte todo o resto se torna profundo, inclusive o que antes passava batido)



Ando emotiva, tenho falado em lágrimas. Insisto, perceba, que não são lágrimas ruins. Mas ando emotiva, emotiva, emotiva. Descubro, através de intensas reflexões solitárias, que não ando, corro ou pulo, eu sou. Movida por coisas sem nome, cor ou definição, apesar de gostar de coloridices, de batizar palavras, de viver inventando expressões ou coisa parecida. Mais do que uma fase, a palavra emotiva traz consigo um significado que ultrapassa definições exatas de dicionários, afinal, quer palavra menos exata do que essa?


São três as coisas que mais gosto na vida: cinema, livro e abraço. Eu gosto até de filme ruim, desde que seja filme, não sei se você me entende. Livro ruim eu desisto no meio, mas logo pego outro, não perco a esperança de encontrar bons livros. E eles existem, aos montes. Todo mundo tem um livro preferido e o famoso filme-da-vida. Qual é o da sua? O da minha é cheio de abraços (e que sejam sinceros, por favor!). Estou um pouco cansada da falta de verdade, daquele sorriso-obrigatório-social-aterrorizante-e-burocrático, vamos, você precisa ir e sorrir e fingir que tudo está bem e muito bem e tudo bem, pois você adora aquele lugar, seja ele qual for, seja você quem for eu repito: não faça isso, não entre nesse barco todo remendado que é o social-obrigatório-tenho-que-ir-e-dar-abracinhos-moles, não está nada bem, não. Não!, você tem que abraçar com gosto, aperto, vontade, tem que sentir o corpo do outro, cada mudança de temperatura, cada alteração, alternação, cada pêlo, marca, sinal, mancha, cicatriz, hematoma, corte, arranhão. Sentir o cheiro de perfume, desodorante, cheiro de passado, de sono, de cansaço, de fé, de lembranças, cheiro de cerveja, de amaciante Fofo, cheiro de molho de tomate, de cigarro, de shampoo, de gel no cabelo, cheiro de vida que está renovada, estragada ou revoltada, mas viva. Viva, no sentido amplo e infinito da palavra.


Você pode estar num momento difícil, de transição, de perder-se em si mesmo, de fazer projeções e transferências de maneira inadequada, você pode estar em alfa, zen, em um dia nervoso, patético, calmo, em um dia comum, em um dia cheio de novidades, você pode estar passando por um momento mais difícil do que o da primeira linha, uma fase de achar-se em si mesmo, largar-se na vida, momento egoísta, intimista, altruísta, nazista, todos os istas estão lá, esperando você decidir que momento é este, qual momento será o próximo? Independente de tudo, tempo, situação, ganho, perda ou até mesmo alucinação, não consigo perder a capacidade de ser emotiva. Não, não pense que é sempre bom, não sou a-toda-boa, a toda alegre o tempo todo, a toda amorosa constantemente. Eu sou estranha, tenho gestos e pensamentos e encanações e neuras e filosofias viajantes e temperamento salgado e toda uma série de e's que não consigo ajustar aqui, agora, pra você, talvez por não saber ajustá-los nem pra mim. Mas deixa isso tudo pra lá, eu e a minha estranhice, estranheza, estranhagem, estranhamento, estranhação. Estranha ação. É isso aí, sou cheia de estranhas ações. Uma delas é tentar explicar o sentido de uma coisa que nem sentido faz. Vou tentar de novo.


Ando emotiva, é isso que tento dizer pra você. Um filme que conta a história de um casal e ele morre e ela fica sozinha e com as memórias e com a falta do gosto do beijo dele e com a ausência nos braços, ao invés daqueles abraços acolhedores que a protegiam de tudo e dela mesma. Um livro cujo tema é a história de um indivíduo que tinha um amor perdido, queria encontrá-lo de todos os jeitos, nada, nada adianta quando o amor se perdeu entre as linhas. Uma mulher que tem um blog e que perdeu o marido e estava grávida e meu deus, ela teve o filho sozinha e o amor todo, todo aquele amor guardado no peito e a promessa de dias unidos, eles, os três, tudo por água abaixo. Agora você dirá: toda a mulher chora em filme de mulherzinha, em histórias de amor e em casos assim. Agora eu lhe digo: não. Antes eu chorava, chorava de achar bonito, chorava de me arrepiar, de pensar nossa-que-coisa-linda. E no fundo, lá no meu fundo mais fundo eu pensava nossa-como-o-amor-é-um-troço-lindo. Bem mais pro fundo do meu fundo eu tinha uma certa inveja. Inveja do Desconhecido. Porque hoje eu conheço essas coisas todas, o amor e tudo que o envolve, embala, contém, abriga. Hoje eu sei, sei muita coisa que antes não sabia. E o meu saber faz com que eu me emocione por entender o que essas pessoas sentem no instante em que há a liberdade de entrega. O amor é entrega, o amor pleno e de verdade é entrega pura e limpa, de tudo. No meio do meu saber tudo o que antes, pra mim, era coisa de filme e livro e blog e bonitezas em geral, no meio disso tudo fica o entendimento absoluto e total do que é amar uma pessoa. E fica, também, um gosto triste de imaginar que, talvez, de repente, um dia ou uma noite, a vida ou os acontecimentos, façam com que eu perca você. Ou que você se perca de mim. Ou que a gente se perca um do outro.


Ando emotiva. O amor, aquele amor que virou Conhecido e bem passado e que chegou com alguns minutos e anos de atraso e se tornou claro e limpo e tudo e, especialmente, essencialmente e principalmente livre, aquele amor é o que faz com que eu veja tudo com outros olhos. Uns olhos que, em certas ocasiões, são ligeiramente assustados, pois a gente tem medo de perder a nossa parte mais bonita.


Quase-sim


Andei pensando (De novo?, dirá você. De novo!, digo eu.) sobre os que têm a coragem guardada no subsolo. Para os desavisados: não é pra qualquer um ter a dádiva de possuir a coragem sentada no sofá da sala, primeiro andar. Ou lendo "O pai Goriot" na biblioteca de casa, segundo andar. De vez em quando a coragem fica mesmo é lá embaixo, num lugar com pouca claridade e algum pó namorando as teias de aranha e o mofo, triângulo amoroso marcando presença na falta de luz.


Outro dia assisti Sex and the City , o filme. Sou fã do seriado, é divertido e possui diálogos com sacadas cheias de humor inteligente. O filme estreou no cinema há algum tempo, mas acabei assistindo em dvd faz poucos dias. E fiquei pensativa a respeito de algumas coisas. Um homem quer casar com você e chega no dia do casamento e ele decide que não quer mais casar com você e simplesmente vai embora enquanto você fica com cara de caneca e buquê na mão. Sim, ainda bem que você tem amigas que te livram das garras da vergonha, pois a igreja está cheia de convidados, afinal, é um casamento, o seu, é um evento e o recinto está repleto de gente, conhecidos, amigos, aqueles-que-temos-que-convidar-só-pra-constar e meu-deus-do-céu-que-tipo-de-amor-é-esse? Se você não sabe do que falo e está me achando uma maluca, alugue o filme e assista e descubra o porquê da minha rebeldia quanto ao tema.


Se um homem te ama ele te ama. Parece óbvio, e é. Se alguém te ama, seja homem ou mulher ou um cachorro, vai querer o seu bem, em qualquer dia, hora e local, mesmo com medo de compromisso. Na verdade, quem ama não tem medo de compromisso. Porque o "compromisso" não é uma obrigação, não é uma formalidade chata e áspera, quem te ama acha tudo leve e quer fazer por fazer. Quer casar por casar, não porque é bonito fazer uma festa pra 300 convidados e chamar o Fulano-de-Tal-do-Momento pra cantar no casório. Quem quer, faz; quem ama e quer casar, casa e casar não vira algo com peso, uma coisa absurda e que arrepia e dá medo. E quando você ama e está certo de estar fazendo o certo jamais deixa o objeto do seu amor, leia-se: a pessoa amada, plantada na porta da igreja. Existe um ditado que diz que "bem casado é quem bem vive", eu concordo. Um papel, uma cerimônia, uma festa, nada disso tem importância, aliás, até tem. Tudo isso tem importância, mas a essência do casamento não é uma aliança ou alguém que apresenta a carteira de identidade pra servir de testemunha: vai muito além. A essência é o amor e ele nunca anda sozinho, o respeito está ao lado, de braço dado.


Não gosto de quem diz frases-feitas-do-tipo-homem-é-assim-mesmo-e-mulher-é-burra, não concordo. Não são todos os homens que "são assim mesmo". E nem todas as mulheres são burras, mas me surpreendi com uma parte do filme. A Carrie (Sarah Jessica Parker), que é a minha personagem favorita, me decepcionou. Como uma mulher que é abandonada na porta da igreja, leia bem, na por-ta da i-gre-ja, volta pro cara e depois casa com ele? Como? É o amor, você dirá. Que amor é esse?, te pergunto. Não entendo amores que não dão a mínima para os seus sentimentos e desejos. Um casamento é algo planejado. Você quer? Quer mesmo? Então tá, meu amor, eu também quero, vamos fazer assim, desse jeito, tá tudo bem? É tudo muito conversado, elaborado, listas são feitas, detalhes são ajustados. Os dois estão de comum acordo? Ótimo, então agora vamos casar, seja onde for, pode ser na praia, na montanha, em Las Vegas, na cidadezinha ao lado, no cartório, na igreja, em um luau, com 2 pessoas, 20 pessoas, 2.000 pessoas, não importa, o casal escolhe, decide, vai lá e faz. É uma decisão bem acertada e consciente. Eu, por exemplo, um dia tinha lá um sonho de vestido-de-noiva-festa-buquê-igreja-muita-gente-e-festerê. Um dia, eu disse. A gente cresce, os sonhos vão trocando de roupa. Hoje eu ainda tenho uns desejos-mulherzinha-sim. Dispenso a festa-buquê-igreja-muita-gente-e-festerê, mas confesso que fico com o vestido, sei lá, acho bonito. Nada esvoaçante, sei lá, acho brega. E nada de muita-gente-festança-e-coisa-e-tal, sei lá, acho pouco útil. Vou te explicar: os noivos nunca aproveitam 100% as festas de casamento, pois eles cansam, é chato tirar foto com trocentas pessoas, é chato ter que manter a compostura, não poder tirar o sapato, dar abraço em amiga de prima de avó que é pentelha. Além do mais: sempre tem alguém que sai falando mal da festa. Acho que as festas são para os outros, quando, na verdade, têm que ser para o casal. Então eu prefiro casar assim: eu, ele, o padre-pastor-sei-lá-um-p-qualquer e alguém, pois alguém sempre tem que servir de testemunha, você sabe. O vestido vai estar junto. E uma flor na mão, uma bem cheirosa. E pode ser na praia, depois a gente joga a flor no mar, pulamos sete ondas e ficamos vendo a lua cheia e ouvindo o silêncio do vento.


Sabe o papo da coragem? Foi proposital. Você acha que é necessário ter coragem para casar? Andei pensando (agora aguenta!): é necessário ter amor. E vontade, apenas. Com a duplinha em ação, a coragem sobe e se sente em casa. Acho que é preciso ter coragem, e muita, pra mandar pastar um cara que diz que te ama, te dá um apartamento enorme e lindo e depois te diz, por telefone, que não conseguiu casar com você. E o cara, por sinal, tem que comprar Gelol pra passar nas bochechas, pois certamente vai ficar cheio de hematomas.

Sem palavras


(Uma palavra. Cem palavras. O fato é que elas são mais poderosas do que qualquer espécie de ácido que promete acabar com as rugas, muito mais problemáticas do que o aquecimento global, muito mais terríveis do que o sobe-e-desce-da-Bolsa, muito mais traiçoeiras do que gatos, muito mais difíceis de digerir do que mocotó.)


Andei chorando, sei que você deve estar pensando "conta uma coisa nova". E eu vou contar: andei chorando. Tem gente que associa o choro com tristeza, eu uno as minhas lágrimas com coisas que me emocionam. Sempre foi assim: feliz, infeliz, alegre, deprê, eu choro. Choro naqueles dias não-sei-direito-o-que-tá-havendo. Tem também a fase sou-eu-ou-é-o-mundo-que-tá-girando-pro-outro-lado? Na verdade o meu choro é meio lua, tem fases, tempos, espaços, de vez em quando é um chororô perdido, outras tantas vezes é um choro certo, pois eu sempre achei que nós sabemos o motivo de tanta (s) lágrima (s). Não me engane, você sabe, a gente sempre sabe. Gostamos, é bem verdade, de tapar o sol com a peneira, eu detesto essa expressão, você me entendeu, gostamos de mentir, incorporar um personagem qualquer pra aliviar as possíveis aflições, mas as aflições são inaliviáveis e a palavra, nós sabemos, não existe no Aurélio.




Tenho ouvido muito o cd do Marcelo Camelo, não sei se você simpatiza, eu gosto e a voz dele me acalma e ao mesmo tempo (você sabe que aqui dentro é tudo sempre ao mesmo tempo) me deixa meio reflexiva. Ele tem um tom suave, a voz dele entra pelos meus ouvidos e fica andando em círculos pelos meus pensamentos. O cd se chama "Sou", tem duas músicas que gosto muito, uma é "Vida doce" e a outra é "Doce solidão". Não, não pense (se você ainda não ouviu o hermano solito) que o cd é todo açucarado, foi pura coincidência. É que eu, você sabe, estou em uma fase meio Beto Barbosa, adocicada, talvez isso explique a preferência pela dupla doce. O cd me fez chorar, não, não vá achar que as músicas são horríveis. O livro que estou lendo também me faz chorar, é a biografia do Caio Fernando Abreu, escrita pela Jeanne Callegari. Quem gosta dele, leia. Quem não conhece a sua vida e obra, leia. Quem nunca ouviu falar na Jeanne, compre. Não, ela não me conhece, não ganho nada pelo momento-compra-o-livrinho-faz-o-favor-aí-amizade. É que eu amo ele, quem me conhece sabe. Outro dia fiquei tristérrima e chorei (novidade?), uma amiga pediu emprestado o livro de Cartas, você conhece? É um livro organizado pelo Italo Moriconi, uma reunião linda das cartas-cronicadas-textoadas-maravilhadas-doloridas-cheias-de-vida-e-morte-e-tudo-mais que o Caio Fernando escreveu ao longo da vida. Como eu dizia, emprestei e danou-se. Foi-se. Perdeu-se. Acabou-se. Fiquei bem chateada, era um livro de estimação, o meu preferido, o mais lido e remexido, sabe? Cheio de anotações, coisas sublinhadas, passagens, trechos, frases, palavras que gosto. Um tempão depois vou reler e penso epa, sublinhei isso por qual motivo? Aí percebo que isso-aqui-eu-esqueci-de-sublinhar? O momento sublinha-sublinha tem muito a ver com o humor, a fase da vida. Gosto de reler as minhas anotações, impressões sobre determinada obra ou passagem do livro. E me sinto meio invadida se alguém vai lá e remexe, entende? Parece que a pessoa vai descobrir os meus segredos ou anseios através de coisas sublinhadas. Tem gente que dobra livro, deixa ele todo esgualepado, eu não. Eu cuido, mas todos os meus livros são marcados, riscados, escritos, sublinhados. Adoro isso. E o livro de Cartas danou-se. Era realmente de estimação. Te dou outro, ela disse. Não precisa, respondi. Nada, sabe, nada vai trazer de volta todos aqueles momentos-marca-texto-rosa-e-amarelo. Deixa, deixa, outro dia, em outro momento, eu compro de novo. E re-sublinho.




Ando muito mal-humorada, percebi que não escrever (leia-se: não publicar, pois escrevo todos os dias, nem que seja uma mísera linha somaliana, magricela, mal cuidada) me dá um mau humor animalesco. Então, a técnica do humor é: escreve, publica no blog. Assim fica tudo bem, não tenho que usar focinheira e nem ser algemada para andar na rua. Estou na tpm, talvez seja a grande explicação para tanta sensibilidade-fúria-guardada-e-contida-no-peito-dolorido. Estou tomando uma pílula que, dizem, atenua os efeitos da tpm. Dizem, não vi nada de mais. Existe um medicamento novo no mercado, é específico para as mulheres-Almodóvar-à-beira-de-um-ataque-de-nervos (se você nunca assistiu, alugue hoje mesmo, o filme é engraçadíssimo). Diz a lenda, você sabe que o mundo é cheio delas, que ele dá aquela equilibrada nos hormônios. Vou testar e depois dou maiores detalhes (se eu lembrar, pois preciso tomar um remédio pra memória, sou a mais esquecida do planeta).




Qual a razão do texto? Não é fazer propaganda de filmes, remédios, livros, cd's, lambada e derivados, acredite. Tantas coisas nos fazem chorar, elas podem ser simples, complicadas, ingênuas, rebuscadas. O que provoca o choro certamente é algo que mexe em algum ponto de nós. E deve ser um ponto caliente, eu aposto. Lágrimas são quentes, você já viu lágrima gelada? Eu nunca. As minhas são bem quentes, pegam fogo. Vou contar uma coisa pra você. Sei que não deve ser novidade, hoje estou muito démodé, perdão. Tudo o que falam pra você, de bom e ruim, é inesquecível.




Você, o ser que ouve, é o mesmo que chora aquele choro triste, que traz uma sensação solitariamente estranha. Ou feliz, que deixa as lágrimas escorrendo por entre sorrisos e peito flutuando, sim, as lágrimas alegrinhas nos fazem flutuar, é que nem quando tomamos uns goles a mais de champa, fica tudo uhu-que-gostoso. Você, o ser que fala, não lembra de nada, não sabe se o que disse de bom fez o outro sorrir por dentro e por fora, transbordar alegria; não sabe se o que disse de ruim fez o outro rasgar por dentro e por fora, se desmanchar de tristeza. Por isso a gente tem que ter atenção, as palavras são armas. São muito mais poderosas do que qualquer espécie de ácido que promete acabar com as rugas, muito mais problemáticas do que o aquecimento global, muito mais terríveis do que o sobe-e-desce-da-Bolsa, muito mais traiçoeiras do que gatos, muito mais difíceis de digerir do que mocotó. As palavras doem mais do que qualquer chute no saco-pra-quem-tem, do que qualquer batida no seio-sensível-pré-menstruação, do que qualquer enxaqueca incurável, do que qualquer batidinha que o mini-dedo dá na mesa da sala de jantar, do que qualquer pele do ladinho da unha que você arranca com o dente e sai sangue e depois fica ardendo na água quente, na hora do banho ou nos momentos-Amélia-lava-louça-toda-a-noite. As palavras doem mais do que puxão de cabelo, voadora nas costas, tapa-na-cara-dupla-face, soco no nariz. O soco pode trazer um roxo que pode demorar semanas até sarar que pode implorar por gelo e pomadinha e compressa e chá de camomila pra desinchar que pode necessitar uma espécie de reclusão porque é constrangedor sair na rua com o olho roxo, todo mundo sabe que você levou uma coça. Mas o soco cura, você encontra o Tyson e fica tudo bem, ele até te convida pra tomar uma gelada e tudo acaba virando uma grande piada de mesa de bar, rá, seu boxeador de uma figa, bate de novo se você é bem macho! Risadas e mais risadas e provocações bem divertidas.




Experimente dar uma palavrada na cara. Eu sei, você vai esquecer da força com que ela saiu da sua boca e percorreu o curto espaço entre os seus lábios e os ouvidos do outro. Você nem vai lembrar o peso da sua língua. O outro? Ele vai tentar esquecer, vai tomar todos os remédios que indicarem, vai fazer a dança da chuva, vai rezar pra Nossa Senhora Desatadora de Palavradas na Cara, vai implorar para que o Demônio Palavral volte para o inferno. Nada vai adiantar. O roxo da palavrada é na alma. E, acredite, dependendo da situação, nunca sara. É por isso que a gente deve tomar muito cuidado. Principalmente se quem nocauteia a sua alma reside dentro dela. Sem pagar aluguel, nem condomínio, nem nada.

Estratégias de comunicação


Eu mudo bastante, com freqüência violenta. Falo de humor e exemplifico. Hoje acordei cedo-cedo-cedo, era tão cedo que o jornaleiro nem tinha atirado a Zero Hora aqui ainda. Acordei feliz, me olhei no espelho e fui com a minha cara (às vezes acontece, principalmente quando estou simpática, mas acredite: simpatia não é o meu forte.), fiz um café bem bom, cantarolei enquanto lavava a xícara, fui correr, produzi endorfina e, tecnicamente, nada poderia atrapalhar o meu dia. Tecnicamente, eu disse. Trim-trim, é incrível como um simples telefonema puxa o seu tapete.


Trabalhamos com pepinos, diga o seu problema, por favor, e aguarde na linha. Primeiro pepino. E eles começaram a fazer fila. Única. Indiana. E ela começou a ficar dupla, meu pai do céu! Uma amiga com um problemão (eu disse um pro-ble-mão! o "P" merece ser maiúsculo, com licença: Pro-ble-mão!), o jardineiro que não veio e a grama está quase do tamanho do muro que tem um metro e oitenta e cinco, uma professora que se odeia e deve estar com muita-tensão-pré-menstrual, a cadela que comeu a toalha que estava pendurada no varal, ai-meu-pai, falta acontecer mais o quê? Acredita em mim: pepino nunca é filho único e, às vezes, podem ser gêmeos ou trigêmeos. Meu humor, por óbvio, ficou do avesso. Telefone não parava de tocar e aquele barulho foi me dando uma irritação dos infernos e começou a me dar enxaqueca e eu pensei caramba, hoje é só terça-feira, pára tudo.


Eu mudo bastante, com uma freqüência violenta. Já tive o cabelo cor-de-cenoura-doente, castanho claro, castanho escuro, loiro-sou-bem-vagaba, loiro-de-moça-decente e agora ele tá mais ou menos natural. Mais ou menos, digo, pois só quem já mexeu no cabelo sabe que depois que mexe tem que remexer. É uma desgraça, mulher não deveria mexer no cabelo. Mas a gente é desgracenta. Um conselho: se você tem o cabelo claro (loiro, loiro médio, loiro cinza, loiro acastanhado, loiro loirão, loiro loirinho, loiro loiro, loiro apenas, quase loiro), por favor, nunca escureça as melenas, você irá se arrepender. Bem que a Mãe Diná me avisou. Já tive o cabelo comprido, liso, ondulado, repicado, picotado, em camadas, camadinhas e camadonas, agora quero ele normal, pelo amor, fica normal! E ele não fica, tudo depende do dia, ele nasceu, cresceu e evoluiu cheio de vontades, meu cabelo é mimado. Tive que cortar quatro dedos, sabe o que isso significa? Quatro dedos é muita coisa, mas ele estava cheio de pontas duplas e triplas, um horror.


Um dia eu quis muitas coisas, outro dia eu não gostava de muitas pessoas e em outra vez eu perdia a paciência mais rápido do que Miojo-fica-pronto-em-três-minutinhos-calma-minha-gente. Então eu percebi que a gente vai mudando, se adaptando, levando, se acostumando, se ajeitando, renegando, rejeitando, se recuperando. Há cinco anos atrás eu adorava boate, lugar cheio de fumaça, música alta e gente saracoteando na minha volta. Hoje eu detesto, prefiro lugares mais calmos, gente mais serena. Há dez anos atrás eu odiava cebola, não comia de jeito nenhum e hoje eu adoro. Há quatro anos pensei ter achado o big love da minha vida e então descobri que a gente não acha amor nenhum: ele nos acha e se apresenta. E de vez em quando (ou de vez em sempre) ele se atrasa, mas chega. Há poucos dias pensei que iria enlouquecer por estar com um pé quase nos trintinha e, vou te contar, estou bem resolvida e quase amiga do Balzac.


Ainda bem que a gente muda, tem que ter coragem. Mais do que isso: é preciso ter desapego. A mudança é fruto da nossa comunicação com o mais profundo de nós. E, você sabe, nem sempre conseguimos falar com o nosso próprio eu. Às vezes dá ocupado. Ou fora da área de cobertura. O que não podemos é deixar de tentar, uma hora chama. Trim-trim, pode ser pra você.

Leitores-amores,
Vocês são uns amores mesmo, muito obrigada. Recebi um e-mail mais lindo que o outro, cartão, scrap, poesia e até musiquinha! Não tenho como agradecer, de verdade. De qualquer forma aí vai: obrigada, de coração, pelo gesto de cada um no dia do meu aniversário, fiquei muito faceira.
Um beijo grande pra todo mundo, valeu pelo carinho!

AVISO:

FICAREMOS ATÉ SEGUNDA, DIA 6 DE OUTUBRO, FORA DO AR!!!

O trio




"A verdade de outra pessoa não está no que ela te revela, mas naquilo que não pode revelar-te. Portanto, se quiseres compreendê-la, não escute o que ela diz, mas antes, o que ela não diz."



(Khalil Gibran)





É preciso saber ouvir os silêncios. Os meus, os seus, os nossos. Para quem não sabe: o silêncio tem som. O grande problema é que muitos não sabem ouvi-lo, seja por pavor ou ignorância. Então arrumam várias tarefas ao mesmo tempo, se escondem em músicas, filmes, livros, bocas. E, inconscientemente, vão se enganando.

Há um tempo atrás eu me enganava, preferia não ouvir o silêncio, a quietude me agitava e eu precisava de barulhos externos, pois os internos faziam rave dentro de mim. Não acabava pela manhã, era uma rave eterna. Um dia, não sei bem em que horário, resolvi tirar o sapato, pegar a minha bolsa e ir embora da festa. Tomei um banho (já percebeu que pensamos com mais transparência depois de limpos e perfumados?) e decidi: quero o meu silêncio. Liguei para ele e disse "vem pra cá, preciso de você". Fiz umas rosquinhas e um chá de morango e sentei, a fim de esperá-lo.

Depois de alguns minutos, lá estava ele. E ainda trouxe companhia: a paz. Mas a paz é um pouco tímida, demora para se sentir em casa, então chegou e ficou quieta, não quis conversar comigo. Ficamos, então, eu e o silêncio. Comecei a aprender coisas, compartilhamos momentos, passado, presente e pensamos a longo prazo, somos bem organizados, temos foco, nos preocupamos com o futuro. Dividi sentimentos, inquietações, arrombamentos emocionais, pois todos nós um dia fomos ou seremos ou somos furtados, roubados, lesados ou invadidos emocionalmente. Ele me ouviu atentamente, o silêncio é um bom amigo, além de fiel, pois nunca lhe vira as costas ou altera o tom de voz. Ele é calmo, manso, sereno, cuidadoso.

Depois de muito diálogo, abraços carinhosos, cafunés, risadas, recordações e planos, o silêncio conversou com a paz e disse que já era hora dela abrir a geladeira. Você sabe: nos sentimos realmente à vontade na casa de alguém quando abrimos a geladeira com a maior naturalidade do planeta. A paz levantou, caminhou passos vagarosos e abriu a porta da minha geladeira. Pegou uma garrafa de suco de laranja, procurou um copo, encheu, tomou e perguntou se eu queria um pouco. Aceitei, adoro suco de laranja. Sem gelo e sem sementes.

Ficamos lá, nós três: eu, o silêncio e a paz. E foi aí que começou um triângulo amoroso que, acredito eu, não terá fim. É preciso saber ouvir os silêncios. Os meus, os seus, os nossos. Para quem não sabe: o silêncio tem som. Descubra os acordes do seu.

Maratona de redecoração


"Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra."


(Caio Fernando Abreu)





Eu observo tudo, todo o tempo, o tempo todo, sem folgas, férias, descansos, sossegos. Já nasci com a alma desconfortável, desajustada, inquieta, quem sabe inadequada? Você já deve ter experimentado aquele sabor de inadequação. Por causa de uma roupa, por ter esbarrado em uma pessoa, por perceber que um sentimento não foi embora de vez, por trocar de lugar o tempo inteiro e, ainda assim, sentir um formigamento espiritual. Declaro: sou a Rainha do Formigamento. Minha cabeça não pára, meu pensamento não pára, minha perna não pára, minha língua não pára, meus dedos não param, meu coração não pára (ainda bem!), meu sentimento não-sou-daqui não pára.

Outro dia saí de um compromisso por volta do meio-dia, estava um sol gostoso, resolvi caminhar um pouco, observar as pessoas, seus afazeres, suas caras, seus jeitos, suas sobrancelhas, seus cabelos, seus sapatos sujos, suas neuras. Óculos de sol, fone no ouvido e esforço para esvaziar a mente. Sim, ela vive cheia, repleta de zum-zum-zum, de vez em quando é preciso parar, eu tento e tento e tento de novo e nem sempre dá e eu sigo me esforçando e acreditando que um dia o bendito zum-zum-zum vai me deixar e vai comprar uma passagem só de ida para Bali. Estava dando a minha música preferida e, sem querer, fiquei com aquele sorriso querendo abrir a cortina da boca, um pouco tímido, meio travesso, sem saber direito o que o esperava lá do outro lado, afinal, você nunca sabe o que tem atrás da cortina. Pode ser um raio de sol, pode ser a chuva que bate na janela, pode ser uma aranha. Enquanto eu cantarolava mentalmente a minha música (é minha, comprei e tenho a nota) vi de tudo: crianças, velhos, casais, solidão, alegria, rancor, tristeza, demonstrações de cuidado, amor e tô-nem-aí.

Você já se sentiu em um clip? Aquele, aquele que tem a sua música. Era eu, era aquele dia, aqueles eram figurantes que escolhi a dedo. Um casal e um menininho lindo e fofo vestido de superhomem. Ele estava pra lá de feliz com aquela roupa, ventava um pouco e a capa dele acompanhava as piruetas que o vento fazia. E ele sorrindo, como é fácil deixar uma criança feliz, quanta simplicidade, quanta verdade. Uma mãe e uma menina loirinha e de olhos azuis estavam caminhando de mãos dadas, a mãe deu um pedaço de empada para a garotinha e ela fez careta e começou a chorar e cuspiu a empada e eu sorri com a cena. Um casal estava dando um beijo apaixonado, beijos, abraços, afagos. Um senhor estava comprando o almoço e falava ao celular, informando para a esposa o que havia comprado e dizendo que era pra ela preparar a cervejinha. Um cara, sozinho, pintava na rua. Uma moça andava de bicicleta. Um casal de velhinhos passeava de mãos dadas e corações abertos, o amor existe mesmo na terceira idade. E eu estava lá, observando tudo, pensando em como cada um é enfiado na sua própria vida, nos seus próprios problemas, nos seus próprios umbigos.

Há muito tempo não entro em uma igreja, missas me dão sono e ultimamente não tenho freqüentado casamentos e batizados. Aquele dia me deu vontade, sei lá, eu vi tanta coisa e tanta gente e gostei tanto da minha vida e da minha gente que resolvi entrar e agradecer por aquela sensação de felicidade. Entrei, percebi que as igrejas estão mais confortáveis: agora você pode ajoelhar tranqüilo que o joelho não dói, tem uma semi-almofadinha. Você entendeu o que eu tentei explicar? Se ficou difícil vá até a igreja mais próxima e ajoelhe. E reze. Ajoelhei, agradeci por ter sido forte em alguns momentos em que achei que não seria capaz de ter força alguma. Vou confessar: eu sou muito valente e, ao mesmo tempo, muito frágil para as coisas. Eu agüento, mas tudo me dói e é uma dor que não tenho como explicar, é funda, dura, diferente. Agradeci pelas pessoas que eu tenho na vida: a minha família, o meu sobrinho bochechudo que agora pensa que já sabe caminhar, a minha cadela que é linda e preta e sapeca, os meus amigos que são essenciais, importantes e amados e o meu namorado, que não acho palavras que descrevam tudo aquilo que eu sinto por ele. E nessa hora eu comecei a chorar. Aquela lágrima meio boba começou a tomar conta de um olho e deu a mão pro outro e elas são bem unidas e não se deixam sozinhas e virou uma festa e chorei. Chorei um choro de felicidade, não de tristeza. Não sei quem disse que choro é triste, eu choro de feliz um montão de vezes.

Antes de voltar para casa eu também pedi. Não gosto de pedir para mim, costumo pedir para os outros, mas dessa vez pedi para eles e para mim. Pedi coisas simples, elas são muito importantes na minha vida. Resolvi voltar, pensativa, mais leve, tranqüila, com uma sensação de paz. E pensei no meu aniversário, que é depois de amanhã. Sempre gostei de fazer aniversário, fico com a alma em festa, ela canta, dança, assopra velas, come brigadeiro e de vez em quando se embebeda. Pra falar a verdade ela se embebeda desde os meus dezessete anos, pois antes eu só tomava Guaraná. Light, óbvio.

Este ano pra mim é muito importante, um ano feliz. Tem gente que faz análise-de-vida no Ano Novo. Listas e projetos e mais listas. Eu faço listas, listinhas e listonas ao longo do ano, sem interrupções para tomar água. É óbvio que no Ano Novo também faço, mas a retrospectiva de vida mesmo eu faço nos meus aniversários. Eles são muito especiais, me trazem sempre algum ensinamento. Gosto de aprender e de saber de mim, a gente precisa se conhecer. E, como eu já me conheço há quase vinte e oito anos, posso dizer que: estou precisando de uma nova decoração.


Telefone sem fio


Há algum tempo atrás me contaram uma história sobre ela. Falaram que um dia ela apareceria, que chegaria sem cerimônia, que me deixaria chocada. Não acreditei, não que eu só acredite vendo, mas não levei muita fé, achei que eram rumores, gente que não tem coisa melhor pra falar, papinho que se perde no ar.
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Sabia que um dia eu iria crescer e, com isso, perceber coisas. Coisas estranhas em um mundo estranho com gente estranha. Percebi mesmo, mas nem tudo era tão terrível. Até aquele dia. Naquele dia eu lembrei que vezenquando falo palavras que não sei o significado, tento imaginar palavras para dizer naquela hora, mas quando a tal hora chega, misteriosamente elas chegam até a minha boca e dão um passo para trás, vão embora. Umas são mais atletas e saem correndo, dando cambalhotas, pulando.
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Minha avó me avisou, minhas tias, minha mãe, minhas amigas e algumas conhecidas também. Não acreditei, não que eu só acredite vendo, mas quer saber a verdade? A gente sempre acha que nunca vai acontecer com a gente. Tem revista, jornal, propaganda na TV, está tudo lá, claro, concreto, mostrado. Você é informada, sabe, lê, toma conhecimento, vê na cara dos outros, enxerga a recepcionista do salão de beleza, mas isso é o outro, os outros, as outras, você não. Você é diferente, é invencível, é eterna e, de quebra, sabe tudo. Muito informada, muito atenta.
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Você acorda e percebe que um corpo de quase vinte e oito anos demora mais para se recuperar do que um corpo de vinte. O tempo passa, o tempo realmente passa. E você sorri, o tempo é seu, o mundo é seu, tudo é seu, você é uma sem-medo-de-nada. Já percebeu que em alguns dias você acorda linda, com a pele exibida e saudável e em outros você acorda, se olha no espelho e leva um grande susto? Parece que um trator enlouquecido passou por cima do seu rosto. E quem estava dirigindo o tal trator era um motorista ou piloto ou comandante ou não-sei-o-nome-que-tem-quem-dirige-trator (tratoreiro?), o fato é que o cara que estava lá certamente tinha tomado uma garrafa inteira de cachaça da ruim. Não era da boa não, tenho certeza.
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Nunca dei bola para o que os outros falavam, mas sempre chega o dia no qual você passa a dar bola. Porque você não é cega. Porque você é gente. Porque você é mulher. Porque você tem uma supermegavaidade. Então você acorda, faz xixi, vai lavar o rosto, escova os dentes e um grito ecoa pelo bairro inteiro: você ficou cara-a-cara-de-frente-pra-ela. Ela que é ninguém mais, ninguém menos do que a sua Primeira Marca De Expressão. No meio da testa.

 
Sobre os créditos nas imagens:
Todas as imagens que ilustram o blog são retiradas da internet. De 2010 até agora, são extraídas do site weheartit.com
Já as imagens dos anos anteriores foram retiradas do Google e estão sem os créditos dos fotógrafos porque não encontrei. Se a sua imagem está sem crédito, me desculpe: diga seu nome que eu coloco.

©2005 Clarissa Corrêa | + Magda Nascher