Coisas inevitáveis






Crescer é perder o saco. Pequenas coisas não mais bastam. A gente cansa de quem é ingrato, quem não valoriza o gesto pequeno, quem não entende o poder de uma canção, quem não traz a sensibilidade estampada no peito. Eu enjoei de gente que não sabe sentir. E de quem só se queixa da vida e fica parado pensando que uma hora a festa vai ficar animada. A festa, muitas vezes, quem faz sou eu mesma. Tira o sapato e aproveita, dança sem música, canta sem letra, faz caras e bocas e orelhas na frente do espelho, dá um jeito qualquer, mas que seja engraçado e deixe a minha alma em paz. Nem sempre a festa precisa de gente, você gosta de figurantes? Odeio quem tá ali só pra constar. Esteja ali pra me amar. O resto a gente inventa. Traga a sua loucura, os abraços aqui são garantidos. Se a gente não se der bem, tudo bem também, você vai saber. Não baterei a porta na sua cara, deixo você sentar um pouco e beber da minha companhia, depois, por favor, caia fora e não mais volte. Se você bater de novo na minha porta ficarei bem quietinha, muda, parada, fria, você baterá uma, duas, três vezes, ninguém em casa, fim de parágrafo, passe mais tarde.
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Crescer é utilizar melhor o tempo que resta. Cansei de amores de meia página. Amizades com meia dúzia de letras não me satisfazem mais. Com o passar do tempo, a gente quer sossego e tranquilidade que rodopia. Alguém que nos acolha, que nos traga um sorriso gratuito, que dê um abraço que deixa sem ar, que o abraço sem ar seja mudo e que tenha a seguinte legenda "olha, eu estou aqui bem aqui pertinho de você, não fica com medo não". O que a gente quer é se esconder do medo, nem sempre encarar é sinal de maturidade. Muitas vezes fazer um gesto pra lá de obsceno é bem mais maduro, atitude adulta, sabe como é? Foda-se. Às vezes é assim, foda-se mesmo, paciência, babaus, azar do Valdemar. A gente tem que saber bem o que fazer com as horas, o tempo vai passando, anda de ônibus, bicicleta, avião, navio. O tempo viaja, leva muita roupa, paga excesso de bagagem, fica com dor nos pés de tanto andar e perambular feito um mulambento por aí. O tempo fica deprimido, toma Valium e passa cinco dias atirado no sofá sem tomar banho, ganhando um cheiro ruim e um aspecto de acabado.
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Crescer é aceitar que os defeitos são peças indispensáveis no guarda-roupa e, felizmente, nunca saem de moda. Entenda que eu tenho, você tem, o mundo inteiro tem. E a Heidi Klum também, ainda bem. Crescer é compreender que um dia, inevitavelmente, você cresce. Não adianta não querer, se esquivar ou correr. Quando você não tem armas suficientes para combater alguém, guarde a pistola ou a espada. Bandeira branca. Mãos livres. Paz. Crescer é aceitar apenas. Crescer é perceber que mesmo depois de bem crescido você ainda pode dormir abraçado num bicho de pelúcia. Crescer é um belo dia acordar com uma marca de carimbo na testa escrito "cresci". E agora?


 
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©2005 Clarissa Corrêa | + Magda Nascher