Quando o sol aparecer





Ando um pouco carente. Talvez eu tenha me convencido que não preciso ser um rochedo todo o tempo. Fortalezas também cansam, precisam de um tempo. A gente é tão pequeno, tão frágil. Nascemos tão puros, vamos nos perdendo da nossa essência aos poucos. A vida vai nos sujando, vamos colocando o pé na lama e afundando.

Uma descrença anda entalada na minha garganta. Me arranha, dói, incomoda. Não sei se ainda posso acreditar. E eu quero, meu Deus, eu quero desesperadamente acreditar que as pessoas fazem merda e se arrependem. Quero acreditar que as coisas não morrem e que, sim, são eternas e bonitas.

Ando um pouco cansada. Das pessoas. De gente que não cresce. Dos que não sabem olhar para a frente e caminhar com as próprias pernas. Às vezes meus joelhos tremem, meus pés ficam cansados, mas sigo andando. Tem gente que não consegue. Por esses não consigo ter a menor admiração.

Uma desilusão sacode os vidros das minhas janelas e me lembram que não posso abraçar o mundo, não posso levar quem eu gosto nas costas. As pessoas precisam, sim, aprender sozinhas. A gente pode aprender pelo amor ou pela dor. E eu insisto: para crescer tem que doer. A gente precisa sentir aquele gosto amargo na boca para amadurecer. A gente precisa ralar o joelho, tropeçar no sonho, estragar toda a maquiagem, torcer o pé, ficar cheinho de hematomas para valorizar o que efetivamente tem valor. E o que, afinal, tem valor? Essa resposta só você pode dar para você mesmo. De preferência, quando estiver a sós com suas muitas faces.

Ando precisando de amor, carinho, atenção e cuidado. Se você não tem tempo ou seu estômago não permite tamanhas emoções, saia da minha vida. De verdade, saia. Porque eu sou assim, tenho esse meu jeito, tenho lá meus defeitos, mas a vida me encanta. E eu gosto de viver encantada por ela. A gente vive assim, nesse estágio de completa bobeira, lágrimas em filmes de romance, simplicidade, sentimentalismos baratos. E eles me saem muito caro. Se você não consegue suportar tudo que eu carrego comigo, tenha a delicadeza de sair de fininho. Não faça esparro nem grite comigo, gosto de quem fala sem se alterar.

Uma verdade grita dentro de mim: tem vezes que sinto vontade de colocar o pé na estrada. Arrumar as malas, sair correndo do meu corpo, não deixar bilhete nem levar o celular. Ficar perdida de mim mesma, me demitir, terminar tudo, pedir a separação. Então lembro que não posso, que todo mundo leva seu azedume, sua mágoa, seu temor. E tento encarar os meus. É que nem sempre é fácil pra mim. Na verdade, tem sido bem difícil. Não sei lidar com perdas nem com doença. Não consigo encarar esse tipo de coisa. Na verdade, morro de medo. Morro de medo da morte, morro de medo de câncer, morro de medo de doenças do coração, morro de medo de diabetes, morro de medo de coisas que a gente não tem domínio, controle. Mas se Deus sabe o que faz, o sol vai voltar a brilhar para a minha avó. Então, vou me convencer de que não perdi ela para uma vida que, tenho certeza, ela jamais pensou que teria.

 
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©2005 Clarissa Corrêa | + Magda Nascher